viernes, 7 de febrero de 2020

Dizeres

Há tempos se conheciam. Se sabiam desde a palavra. Da palavra escrita. Ela, a palavra, permitia o sentir. O estar próximo. O toque. Sim, o toque. Se tocavam desde a palavra. Toques suaves, sensuais. Não se sabiam de outras maneiras. Imaginavam como seria o cheiro um do outro. Como seria a voz. Como seria a palavra falada. Esse não saber, os envolvia em um mistério quase erótico. Numa doce obsessão do querer mais. Num desejo imenso de se revelar. De se dar ao outro. De se dizer.
Em uma noite chuvosa, ela precipitou-se a ele e, num ato de coragem, decidiu revelar-se. Revelar-se da maneira mais bela que um Ser pode mostrar-se a outro: leria para ele uma Poesia.
Trêmula, pegou o livro e se pôs diante do computador. E, sentindo-se completamente nua, leu para ele numa profunda entrega. Num profundo gozo:

"Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra."
                                             (Julio Cortázar)





















jueves, 23 de enero de 2020

É preciso silêncios



-"Oi, que bom que você veio! Não, não te esperava. Claro, que estou surpresa! Entra, pode entrar. Senta. Que tomar algo? "
-"Água?"
-."Muita água, em você, não é? A sua maneira de ser me lembra o movimento das águas, águas mansas. Você é suave. Chega deslizando e vai entrando onde encontra frestas e de repente, sem que se perceba, a gente se inunda. E é gostoso. É terno. É prazeroso. Sentir você."
 - "Que viagem! É que sou assim. Vivo nas nuvens. De vez em quando desço para ter com os outros. Para Ser. Se me assusta? Muito. Por isso deixo sempre a porta aberta. Se acaso..."
-"Engraçado, que agora aqui com você, mesmo com a porta aberta, não tenho vontade de ir. Sinto uma imensa vontade de ficar. Você? Não te assusta ficar? Não? Imaginei. Tem que ter muita coragem pra ficar. Sinto uma espécie de vertigem. Forte, isso. Intenso."
-"E agora o que se faz? Não tenho a vivência do ficar. Ficar dói?"
- "Não? É só silenciar e sentir?"
-"É, preciso silêncios..."


lunes, 16 de diciembre de 2019

O Poema Sou Eu

O poema sou eu
Que renasço sempre como uma Fênix.
Que sei ser água profunda, terra firme, fogo acalentador e ar, às vezes  brisa, às vezes vendaval.

O poema sou eu
Que não vivo pela metade. Sou profundamente. Sinto intensamente. Amo insanamente.

O poema sou eu
Que Sou confiança. Sou aconchego. Acolho. Cuido. Sou uma linda canção de ninar.

O poema sou eu
Que Sou Mulher e não temo o meu gozo. O reverencio. Que sei de mim. Que caminho sobre o abismo das paixões pelo simples prazer de caminhar.

O poema sou eu
Que sou uma em tantas e tantas em uma. E, que me sei, Sendo.

O poema: Sou Eu.

lunes, 12 de noviembre de 2018

Sobre a loucura

No palco escuro havia uma cesta. De dentro da cesta ouvimos uma voz, uma voz de uma mulher, uma mulher velha, pedindo para que a tirem de lá, pois precisa respirar, precisa se mover, precisa sair daquele lugar fechado. Uma mão de um homem destapa a cesta e a retira desse lugar escuro. Trás a mulher velha à luz, lhe dar vida. Parece até que a manipula. Mas não. Ela lhe toma a vida que lhe pertence e por um breve momento nos permite conhecê-la, nos permite viver com ela sua velhice, seus prazeres, suas dores. Nos faz rir, nos faz pensar. Nos emociona com sua presença. Mas, só por um breve momento, pois a mesma mão que a retira da cesta, agora quer que ela volte para dentro da cesta, que ela deixe de ser ela mesma e se resigne a este lugar que lhe cabe. Junto com ela dizemos não. Não volta, fica. Não permita que ele lhe faça isso. Mas aí ela nos lembra que ela é somente uma boneca, um ser sem vida e quem dar vida a ela é ele. E nos sentimos tão impotentes. Ela não. Ela com toda a sua dignidade de boneca, decide que sim, vai voltar pra cesta mas não porque ele assim o decide e sim porque ela assim o determina, assim o quer. E nós na platéia, ficamos pensando quem deu e dá vida a quem. Será que estamos todos loucos? 




Foto: acervo Sesi Bonecos do Mundo
Texto em homenagem ao espetáculo "A Velha" de Horácio Peralto/Bululu Teatro

domingo, 9 de noviembre de 2014

Sobre as promessas

Desde criança, quando via sua mãe com esta expressão, sabia que algo muito sério estava prestes a acontecer. Hoje, diferente das outras vezes, não se sentia angustiado, ao contrário, observava sua mãe com um carinho que há tempos não sentia. Talvez o tempo tivesse passado, ele não era mais uma criança e ela já era uma senhora de oitenta anos. Era ela uma mulher bonita, apesar de muito pouco vaidosa, quase não se arrumava. Se maquiar? Somente em ocasiões muito especiais. Tinha sempre um ar sério, rara vezes lhe viu sorrir. E era lindo quando ela sorria! Lindo. Não sabia, então, por que sua mãe lhe chamara com tanta urgência, sabia que se tratava de algo especial, pois ela até se maquiara.
Apesar de nunca ter-lhe dito, ela se emocionava sempre ao vê-lo ali parado, calado, somente a observá-la. Tinha um olhar tão doce seu filho. Um olhar de tantos quereres. De tantos sonhos. Agora, mesmo já sendo um homem de cinquenta anos, não tinha perdido esse  olhar. Mesmo tendo durante a sua vida recebido tantos "nãos" continuava com o sonho no olhar. Doía-lhe a alma sempre que lembrava do tempo que não esteve com ele. Tinha que trabalhar muito durante a semana, mal se viam e no fim de semana estava cansada e ainda tinha os afazeres domésticos. Assim, não sobrava tempo para brincar com ele, para se divertir juntos. Sabia que o tempo tinha passado, mas sabia também da importância de se reconstruir histórias. Suas histórias. Por isso o  chamara em sua casa, precisava se permitir realizar um sonho dele que ela sempre negara. E como há muito tempo não fazia, o tomou pela mão, beijou sua testa e o convidou para passear.
Aonde sua mãe o estaria levando? Não sabia. Mas gostou da ideia de sair assim, somente os dois a caminhar sem destino. No caminho ia lembrando quando era criança e das raras vezes que se permitiram sair assim a passear. Ela sempre que podia lhe levava ao parque de diversão que todo ano se armava no bairro para a festa da padroeira, para ele era o momento mais feliz de sua vida, apesar de nunca ter podido brincar na roda gigante. Era tão mágico aquele brinquedo, aquelas luzes, aquela roda a girar. Ficava horas a observá-la. Era o seu brinquedo preferido, mas era proibido. Não entendia porque a sua mãe achava perigoso algo tão belo. E como era obediente, apenas aceitava calado a imposição de sua mãe.
Lamentava ela,  não ter podido levá-lo a brincar na roda gigante quando menino, sempre dizia que era porque era perigoso, mas a verdade é que não tinha dinheiro o suficiente, o dinheiro que tinha só dava para pagar os brinquedos mais baratos. Mas, hoje não. Hoje, ela faria diferente. Com um leve sorriso no rosto, sem que ele imaginasse, o estava levando para a um parque de diversão, precisava ainda em vida, permiti-lhe dar uma volta na roda gigante, precisava viver isso com ele.
Uma lágrima caiu de seus olhos ao se ver diante de um parque de diversão. Seu coração batia acelerado somente ao pressentir o que ia lhe acontecer. Sua mãe, decidida o levou até a roda gigante e o convidou a subir. Neste momento não era mais o homem de cinquenta anos, e sim o menino que tantas vezes sonhou estar ali. Segurado da mão de sua mãe, viveu o momento mais  ansiado de sua vida: a roda começou a girar e com ela todos os seus nãos giravam também e se transformavam em sim.  Que maravilhoso era estar ali. Sentir o vento em seu rosto, ver tudo lá do alto. Sorria. Sorria muito. Experimentou pela primeira vez em sua vida a Felicidade. Era feliz. Era imensamente feliz. Abraçou sua mãe e ficou assim dentro desse abraco,simplesmente sendo com ela.
Não conseguia falar, a emoção de seu filho era tanta, que ela não conseguia falar. Somente sentia. E foi nesse sentir-se com ele que ela fechou os olhos e entregou-se a imensidão de Ser. E assim, abraçada a seu filho como uma menina ao pai, ela foi se permitindo ir-se. Girando, sorrindo, feliz. Parecia até que dormia.


jueves, 7 de marzo de 2013

Sobre o existir

O coração não batia mais. Um profundo silêncio tomara conta de seu ser. O silêncio da inexistência. O silêncio de não se saber mais. Apenas uma dor aguda percorria seu corpo e insistia em lhe lembrar  que ainda estava viva.

A ausência de si era-lhe insuportável. Por mais que buscasse não se encontrava. Fora-se perdendo no imenso e silencioso labirinto de seu ser. Não se via. Não se sabia. Apenas sentia uma dor aguda. Aguda,que insistia em lhe lembrar que ainda estava viva.