domingo, 11 de septiembre de 2011

Ritos de vida


Com a firmeza da alma dos que sabem que a mudança é inevitável, procurava ela, em suas gavetas, a história que um dia construíra para viver. Seu roteiro. Sabia que ele estava por ali, em alguma daquelas gavetas, mas qual? Vasculhava uma por uma, cuidadosamente, sem nenhuma pressa, tinha a certeza que iria encontrá-lo. Foi uma procura profunda, demorou dias, semanas, meses, anos... E lá no fundo, no mais fundo de suas gavetas, estava ele, coberto por um tecido fino transparente, como estivesse esperando há tempos esse momento. Com as mãos trêmulas, retirou-o do fundo da gaveta. Tinha uma capa grossa, escrita com letras grandes e negras... Que pesado que ele era... Encostou-o em seu peito e com muita coragem levou-o para sua cama, deitou com ele. Com lágrimas nos olhos conseguiu abrir a primeira página e leu. Leu devorando cada palavra, como os amantes urgentes se devoram. Ao terminar, enxugou as lágrimas, olhou-se no espelho e olhando profundamente em seus olhos, gritou: Não!

Saiu de seu quarto, sua casa. Correu pela praia... Era noite, noite de lua, de fêmea, de ventre, de vida... E com a vida pulsando em sua alma, fez uma fogueira imensa, arrancou a roupa de seu corpo e jogou-a na fogueira. Começou a dançar, a cantar, a invocar suas irmãs mulheres que um dia estiveram por aqui e que ainda vão estar. Circulava em volta da fogueira e, a cada volta rasgava uma página de seu roteiro e jogava no fogo. Cada volta uma página, até não restar mais nada dessa história. Por último jogou a pesada capa e ficou parada, olhando o fogo consumir aquelas letras grandes e negras...

Na mais imensa paz, caminhou para o mar, deixou-se mergulhar profundamente por suas águas... Agora limpa, vívida e inteira recitava para o Universo, as primeiras palavras de sua nova história: Era uma vez uma mulher feliz, que não temia mais amar e...

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