Estava ela desapercebida, juntando os pedaços que sobrara de sua vida, tentando inutilmente reconstruir uma roupa que pudesse cobri-la, protegê-la deste estado de nudez em que se encontrava. Não percebeu quando ele chegou, não ouviu seus passos, ele chegou silenciosamente. Assustada, tentou em vão cobrir-se, mas ele se adiantou a ela, tomou-lhe das mãos a possibilidade de esconder-se e a olhou, simplesmente olhou. Agora nua, completamente nua, ela caminha pela vida.
Em meio a tantas pessoas, eles se viram. Que linda que ela
estava, como o emocionava vê-la dirigir-se a ele. Ela, apenas o via e ia ao seu
encontro.
Não se disseram nada, apenas caminharam juntos por um bom
tempo, um do lado do outro, imersos em seus pensamentos, sentindo somente a
certeza do outro ao seu lado.
Ela, imaginava tudo o que poderia viver com ele: o passeio
de mãos dadas, o sorriso compartilhado, a primeira briga, o pedido de
desculpas, o abraço, o beijo nos olhos, o carinho, suas histórias, seus sonhos,
seus medos, seus silêncios. E, quando o tempo passasse, se emocionaria por
sabê-lo tanto, por já reconhecer cada gesto seu, cada história contada e
recontada sempre de uma maneira diferente, por saber como ele afagaria seu
cabelo e mesmo que ele não afagasse, ela já o sentiria. Estremeceria sempre
cada vez que ele lhe olhasse com a mesma ternura do primeiro dia.
Ele, imaginava que lindo seria compartilhar a vida com ela,
que tão terno seria poder deitar a cabeça em seu colo e entregar-se sem
reservas a este imenso amor. Não saber-se mais sem ela. Não saber-se mais sem o
seu sorriso, sem o seu olhar, sem o seu amor. Assim, totalmente imersos em seus
sonhos, seguiram caminhando. Pareciam felizes. A vida lhes parecia suave.
Chegando na esquina, voltaram de seus sonhos. Se olharam,
Sorriram. E, por não acreditarem no único que era real, seguiramsós, cada um com seu medo. Ela, desceu as escadas
do metrô e ele, atravessou a rua sem olhar para trás. Deixando assim, para
outros, talvez mais corajosos, a possibilidade de um grande amor. https://youtu.be/WCnArLi3uCk
Com a firmeza da alma dos que sabem que a mudança é inevitável, procurava ela, em suas gavetas, a história que um dia construíra para viver. Seu roteiro. Sabia que ele estava por ali, em alguma daquelas gavetas, mas qual? Vasculhava uma por uma, cuidadosamente, sem nenhuma pressa, tinha a certeza que iria encontrá-lo. Foi uma procura profunda, demorou dias, semanas, meses, anos... E lá no fundo, no mais fundo de suas gavetas, estava ele, coberto por um tecido fino transparente, como estivesse esperando há tempos esse momento. Com as mãos trêmulas, retirou-o do fundo da gaveta. Tinha uma capa grossa, escrita com letras grandes e negras... Que pesado que ele era... Encostou-o em seu peito e com muita coragem levou-o para sua cama, deitou com ele. Com lágrimas nos olhos conseguiu abrir a primeira página e leu. Leu devorando cada palavra, como os amantes urgentes se devoram. Ao terminar, enxugou as lágrimas, olhou-se no espelho e olhando profundamente em seus olhos, gritou: Não!
Saiu de seu quarto, sua casa. Correu pela praia... Era noite, noite de lua, de fêmea, de ventre, de vida... E com a vida pulsando em sua alma, fez uma fogueira imensa, arrancou a roupa de seu corpo e jogou-a na fogueira. Começou a dançar, a cantar, a invocar suas irmãs mulheres que um dia estiveram por aqui e que ainda vão estar. Circulava em volta da fogueira e, a cada volta rasgava uma página de seu roteiro e jogava no fogo. Cada volta uma página, até não restar mais nada dessa história. Por último jogou a pesada capa e ficou parada, olhando o fogo consumir aquelas letras grandes e negras.
Na mais imensa paz, caminhou para o mar, deixou-se mergulhar profundamente por suas águas... Agora limpa, vívida e inteira recitava para o Universo, as primeiras palavras de sua nova história: Era uma vez uma mulher feliz, que não temia mais amar e...
As mãos... Como, para ela, carregam os traços de um homem. Aprendera, desde muito cedo, a conhecer um homem pela suas mãos, pela sensação que provocava em sua alma, o toque dessas mãos.
De menina, quase nunca tocou as mãos de seu pai, mas lembra que elas eram ásperas, pesadas, grandes, firmes. Passou muito tempo acreditando que todos os homens deveriam ter mãos assim. Numa espécie de obsessão, passou a buscar as mãos de seu pai nos homens que ia conhecendo pela vida. Nesse conhecer, foi desconhecendo as mãos que tão pouco lhe tocou, tão pouco lhe afagou. E talvez por negação, começou a preferir os homens de mãos suaves, mãos ternas. Apesar de não dispensar a firmeza. O homem precisa ter mãos firmes para amparar sua mulher e impedir que ela caia nos abismos de sua própria alma.
Pensava sempre que sensuais podem ser as mãos de um homem... Quantas possibilidades carregam... Que marcante é o movimento que elas fazem no ar quando eles falam... Como dizem deles...
Das mãos que conhecera, as que mais lhe marcaram a alma, foram as de seu professor de piano. Em seu primeiro dia de aula, ficou fascinada com a leveza as quais elas se deslizavam pelo piano. Que ágeis que eram ao tocar cada tecla, como conheciam e eram íntimas de cada uma. Uma intimidade quase sexual. Experimentava sensações, sentires indizíveis ao vê-las tocar. Seu professor, o dono das mãos, tinha um ritual que sempre seguia. Ele chegava diante do piano, sentava-se. Tocava com muita delicadeza a tampa do teclado, levantava-a, retirava o pano que cobria as teclas, deslizava suavemente suas mãos sobre elas e começava a explorá-las, a tocá-las uma por uma... Aos poucos uma música ia tomando o ambiente, enchendo de sons sua alma. Esse ritual, entre as mãos e as teclas, povoou suas noites durante muito tempo. Tinha febres, delírios. Imaginava-se o piano.
Um dia, como num sonho, em uma dessas aulas, as mãos dele tocaram as suas. Precisava, ele, ensinar-lhe sobre intensidade. Ela não podia crer que aquelas mãos, agora tocavam as suas, deslizavam sobre os seus dedos e, ternamente, ensinavam-lhe a sentir a música. Que intensos eram os toques de suas mãos. Quantos sentires lhe provocava... Quantos. Eram toques d’alma... Como aprendeu, ela, de intensidade...
Foram muitas, depois desse dia, às noites intensas, onde se (com)fundiam seu corpo com as teclas, as teclas com seu corpo... Não se sabia mais onde começava um e terminava o outro. A música que compunham era puro silêncio.
Mas a vida tem acordes dissonantes, faz parte da harmonia. E eles, apesar de músicos, não se deram conta. Não compreenderam. Não estavam preparados para esses sons tão fortes. Partiram. Nenhum som mais restou. Ela, desde esse dia, nunca mais tocou, era sua maneira de guardar luto. O tempo passou... Passou levando todas as lembranças. O único que não levou foi a certeza que reconheceria, assim como uma cega, o toque destas mãos, no decorrer do tempo.